O ouro líquido se tornou símbolo global de saúde, e a escassez só reforçou seu posicionamento.
A Dieta Mediterrânea
Se você nasceu antes dos anos 2000, vai lembrar que, em algum momento da sua vida passou a ouvir sobre a tal dieta mediterrânea. Na época, parecia apenas mais uma dieta milagrosa, como a “Dieta da Lua” ou a “Dieta da USP” (em que a própria USP precisou esclarecer publicamente que não tinha qualquer relação com aquele regime maluco). Mas aqui a história era diferente.
Até os anos 90 a gordura era demonizada nas dietas de forma quase unânime, numa associação direta entre os lipídios ingeridos na comida e os temidos pneuzinhos. Porém, gradualmente esse discurso foi mudando, e termos como o “colesterol bom” foram tomando as reportagens e capas de revistas. Era o início da noção de que nem toda gordura é igual, um movimento que, alguns anos depois, culminaria no estudo que consolidou de vez a dieta mediterrânea.

O estudo que mudou tudo: PREDIMED
O ensaio clínico realizado na Espanha e publicado em 2013 veio para tentar explicar um paradoxo já conhecido: como populações do sul da Europa consumiam grandes quantidades de gordura e, ainda assim, apresentavam menor incidência de infartos. A hipótese existia havia décadas; faltava demonstrar causalidade.
O estudo analisou o efeito de padrões alimentares em uma população com alto risco de doenças cardiovasculares, dividida em três grupos:
-
Dieta mediterrânea suplementada com azeite extra virgem;
-
Dieta mediterrânea suplementada com castanhas e frutos secos;
-
Grupo de controle com redução no consumo global de gordura na dieta.
O resultado foi marcante: nos grupos que seguiram a dieta mediterrânea, os participantes apresentaram cerca de 30% menos eventos cardiovasculares (infarto, AVC ou morte cardiovascular) em comparação ao grupo controle. No grupo das oleaginosas, o efeito foi muito semelhante (hazard ratio em torno de 0,70–0,72).
Também foram observadas associações favoráveis em análises secundárias, com menor incidência de diabetes tipo 2, hipertensão, fibrilação atrial, síndrome metabólica, declínio cognitivo, doença arterial periférica e câncer de mama.
Azeite que é gostoso também faz bem
Desde então, o azeite passou a ocupar um território seleto dos alimentos que conseguem ser, ao mesmo tempo, saborosos e associados à boa saúde. Foi definitivamente incorporado à cesta do bem-estar, mesmo sendo um alimento de altíssimo teor calórico, e virou símbolo da desassociação entre magreza e saúde.
Como consequência, a demanda aumentou e o preço subiu, mas isso só reforçou o posicionamento do azeite. Num mundo em que saúde é também status, o consumo do santo óleo passou a funcionar como um marcador de cuidado e estilo de vida. Isso se sobrepõe à tendência da gastronomia como entretenimento, que contribui para posicionar o azeite como uma linguagem culinária universal.
No Brasil, o alinhamento cultural com o repertório culinário mediterrâneo, herdado da colonização portuguesa e imigrações europeias, criou um solo fértil para o aumento do consumo. Nos últimos dez anos, o volume consumido cresceu aproximadamente 60%, apesar do cenário econômico adverso. Hoje, o Brasil figura entre os maiores importadores mundiais de azeite, ocupando a segunda posição em alguns anos recentes, atrás apenas dos Estados Unidos.
O problema é que transformar desejo global em produção agrícola é um processo lento, e é aqui que o preço entra em cena.
A produção cresce, mas não é suficiente
É importante entender que a produção de azeite não aumenta do dia para a noite. A oliveira leva cerca de 5 anos para começar a produzir, atingindo sua plenitude produtiva apenas entre 8 e 10 anos. A área global de olivais vem crescendo e está cada vez mais dispersa geograficamente. Ainda assim, esse avanço não tem sido suficiente para acompanhar a expansão da demanda. A isso se soma o fator climático. Eventos extremos e secas recorrentes vêm adicionando uma camada extra de incerteza à produção global, especialmente na principal região produtora do mundo: a bacia do Mediterrâneo.
Por consequência, as safras devem estão variando e os preços também. Chegamos a registrar uma queda em 2025 após uma boa safra na Europa. Mas o ponto aqui é que a pressão de demanda é estrutural e os preços de antigamente não voltarão.
Em meio ao tumulto, saiba escolher
O azeite entrou merecidamente no campo dos alimentos desejados, e isso tem um custo. Os benefícios para a saúde são inegáveis — além de ser delicioso que só. Mas junto com a pressão de demanda também vem o ruído informacional.
Portanto, quando for comprar o seu, faça um favor a este que vos escreve: tente escolher um bom azeite. Para isso não é preciso ser expert: o mais gostoso, quase sempre, também será o mais saudável. Mas isso é assunto para um outro post.
0 comentários